Letras et cetera - Revista Digital

As funções do menestrel

O poeta é como o mineiro
que extrai do incógnito vocabulário do seu saber
uma palavra fio.
E como o tecelão novela e enovela
um convénio consigo mesmo.
Até à glória de artesão.

É um cantador subentendido
que soletra virgulas e pontos.
Com a pluma polifónica
rege o papel
como o eros criança modela a flauta.

O poeta é o tribuno
aquele assombroso e surpreendente
mestre da utopia
que arranca do estômago um disserto sinfónico.

E como o pungente artífice nas cordas duma guitarra
provoca lágrimas estimula regozijos
arrebata a alma do mais rijo pragmático
cravando-lhe versos na mente.
De clemência ou gritos de revolta.

O poeta nunca expira
apenas muda de pluma.

Theófilo de Amarante ( Fernando Oliveira )

O homem temporário

Como considerar o homem que dilapida a sua própria razão.
Se ele se abaixa para adorar outro homem.
Se ele se pasma diante do pó que lhe entra nos olhos.
Se ele emite sons que não lhe pertencem.
Diz com a língua de outrossim.

Onde está o ouvido ingénuo da criança.
O olhar navegador e o enigma singelo da palavra.
Onde está o beneplácito da sua condição.
Se os estatutos que vai receber não tiveram a sua aceitação.
Só letreiros recebeu.
Letreiros que o inundaram desde os cueiros até ao ultraje da última consideração.

A morte cura todos os antedatos e a saudade também morre no letargo do calendário.
Menino de plástico.
De bronze.
De água sem percentagens de razão.

Menino adquirido no amor.
Ou na razão.
Menino que vai fazer o que lhe for ditado.
Menino estendido na terra antes de morrer.
Com algumas marcas nos dentes.
Algumas virgulas de saber.
A razão morta antes de crescer.
Amarelo e plural como o mais simples e fóssil animal.
Mas com um nome na lápide.
Um caderno que já não fala.
Mas ainda o vento com desprezo lê.

É esse homem que virá depois de mim.
Que de mim só dirá o que disserem de mim.
E talvez mais uma virgula rebelde.

Menino com raiz que não lhe pertence.
Que nasceu num livro aberto onde já tudo está escrito.
Homem dominó abraçado nos seus pares.
Sofisticado e crente da hipótese dum outro jogo.
Aquele que lhe permita jogar com pedras que ele próprio pariu.
Ou então fazer um serão com os juízes da sua abnegação.

Nada é necessário!... poderia ter dito Gandhi. Mas ele proferiu o dogma da afirmação engaiolando o indivíduo num enredo já escrito.

Theófilo de Amarante ( Fernando Oliveira )

Simpatia ou aversão

Se eu considerasse que o acto de sacrifício até à bem-aventurança
fosse um juízo ilógico.
Furtaria ao crédulo a ilusão que o leva aos pés do solecismo. Onde mora um afortunado coração.

Dessa maneira me amputaria.

Ficaria somente com o argumento da minha razão.
Um lobo incapaz de criar a água que bebe
e de resolver o campo da sua evolução.

Se eu considerasse a lógica daquela ilusão
e a assemelhasse até ao abstruso da minha regra ou condição
onde mora com ou sem fortuna um básico coração.

Amputaria a inquietação do mártir
que morreria num quadro branco.
De morte animal.
Sem anunciar.
Porque a águia voa.
Porque morre o pai.

De onde veio o meu contravalor.

Theófilo de Amarante (Fernando Oliveira)

E sempre estica o pernil

Discordo do discurso cientifico e analógico
Para mim.
O destino é uma bola de sabão.

Assim.

Carrega ruído e abono metrológico.
Esgota-se nas fumeis gotas do fim.
E rebenta sem dizer sim ou senão.

Depois renasce em Abril.

Theófilo de Amarante

Quatro pares de sapatos.

Caminhei indistinto na procura da fórmula
da orientação - a rosa-dos-ventos.

“Da nascente já vinha.
Não queria rumar a poente.
Era o norte ou
o sul que me chamavam.
Ou uma quinta direcção.”

Parei em alguma parte, num lado inadequado.
Sedento, faminto, mal lavado.
Entre o sol setentrião e a chuva do suão.

Um campo coberto de inanimados com vapores de defeitos
à luz duma lua cheia embalsamada.

Ambíguo, olhei a atmosfera assustada
quase expirando num pratinho arcaico
que expelia defumação.

E nem dei conta de mim.
No centro, centro dum pomar
uma figura cadavérica pendurada na árvore do saber
detém-me com voz de fruto sábio.

Anda ver... anda ver.

Encontrei os meus troncos ascendentes num enfeitiçado suposto
construindo castelos de neve num chão sem alicerces
com cancelas adiadas e janelas abotoadas.

Muros de cal azulada e pátios de equinócio, ouvindo o epinício da mudez
entre portas com colunas ósseas
e almofadas que espelhavam saudade
na acrópole de gente de outrora.

A solução do infinito...
disse-me o sábio macaco com a cabeça procurando o chão
rindo da minha falta de rumo.

Olha o quarto singelo que te proponho.

Erguido num pilar de vento condensado.
Do norte vinha o cheiro do incenso.
Do sul uma luz suspensa num vinhádego
pingava fios gémeos dum néctar de razão.

Um anjo de quatro asas com voo de abelha-macho
presenteava numa folha amarela
sem vacina, um copo de amamento
e um contracto de imortalidade.

Desconfiei e voltei com os quatro pares de sapatos.
A minha rosa-dos-ventos.

Théofilo de Amarante

Dois pratos de balança.

O consensual abeira-se da cobardia
- como a diplomacia.
Que aperta a controvérsia
num colete de razões convexas
que vertem para um centro adequado
onde ficam arquivadas.

Enquanto a discórdia bate quente
o consensual esfria a bala...
mas não lhe deforma a direcção.

Há na razão belicosa da acção
um evento arrancado do enredo comum
ou da crença estabelecida.

Um fio impertinente que não foi tecido
nas regras entrelaçadas
pode esperar outro conceito para se desforrar
fundar um novo conceito
ou refundar o traço do equívoco.

O consensual pode ser contraproducente
se não unir as faíscas antinómicas
preparadas para a colisão.

A cobardia é uma virtude
quando pretende desligar o foco que leva a linha ao conflito.

Pois pretende salvar o elo
que liga o fio ao novelo.

Theófilo de Amarante

Os bolsos da cisma

Depositar a verdade no bolso da sinecura
não é paradoxal...
pois os bolsos andam par-a-par
e a mentira se avizinha
tanto e tanto...
que ninguém sabe em qual bolso elas moram.

Quando precisamos do primeiro substantivo
por vezes utilizamos o segundo.

É a lei da ambiguidade
manipulada por ambidextros.

O par de bolsos é sempre simétrico
- ideado nos panos da antinomia
vivem na cisma do absurdo.

São um do outro – periféricos.

Da verdade...
dizem que pertence à dextrocardia

Da mentira...
que pertence à mitomania
e nada tem a ver com o canhoto
ou o dextro.

Verdade ou mentira?!...

Theófilo de Amarante