Escalas e empilhamentos

Como é leve e colorido o oxigénio que dormita nas escalas das primeiras águas empilhadas em sequências excitantes.
Enquanto as últimas águas estagnam pesadas e escuras abraçadas à terra primitiva.

Como é espontâneo, salubre e musical,
o ar que transporta as cordas oxigenadas nas nobres planícies parentes e diáfanos duma grande família mineral.

E se uma sombra beija uma fralda dum imenso ou módico curso.
Se um ensaio de união se delineia no lago plácido que descansa na companhia dalgum astro cúmplice.
Se um montão de músculos - irrigados por rios vermelhos - contemplam com olhos insuficientes e nostálgicos incapazes de descodificar o sentimento oceânico.
A memória berço do colectivo jamais sobejará para alcançar o ovo nuclear.

A individualidade sempre se sobreporá ao todo.
É ela que o compõe e o desfaz, - se desfazendo.

A água viverá nos nossos olhos como uma orquestra corrupta que salgará o peito dos ingénuos e incapazes primatas.
Fossem eles os mais acrescidos.

Se um grito ou um beijo desliza saltitando como o grão de pedra na superfície do espelho amanhado por criaturas de outra era.
Se no seu entremeio entre elegias e folguedos,
ninfas e elfos revoluteiam entre o envolvo da água perfumada de ambiente arejado.

Nas contiguidades de soalho ocre e pedregoso viandam eternos romeiros que queimam o ar puro com pulmões excessivos.
Nas planícies erram patológicas lágrimas que não chegam a fazer córrego e se evaporam na dialéctica das forças contraditórias.

Todo o destino pretende desaguar naquelas águas que germinam paz ou irascibilidade.

Não sei da viagem que retorna às origens como imagem natureza morta que aviva as veias internas até o fundo dum abismo que jamais alguém baptizou.

Para que serve a água do corpo animal!...
Senão para adir e constituir a fonte colectiva com os suores terminais
que se aniquilam na compilação duma imensa memória inserta num livro mais graúdo que o universo.
Memórias que cozerão no caldeirão do imaginário e volverão resenhas que recairão em gotas de meiga chuva no espelho dos oceanos,
nos lagos, nos ribeiros, nas poças calcorreadas pelas subespécies.
E ao cair e recair - sempre na estuga da mágoa - fazem covinhas saltitantes como as libélulas o fazem nos seus voos rasantes.

E no planeta de terra rude com grandes covas cheias de água memorial
o oxigénio continuará a fabricar escalas e a empilhar memórias.

E o sentimento oceânico que fala continuará a falar de nós até ao seu próprio sepulto.

Theófilo de Amarante (Fernando Oliveira)