O consensual abeira-se da cobardia
- como a diplomacia.
Que aperta a controvérsia
num colete de razões convexas
que vertem para um centro adequado
onde ficam arquivadas.
Enquanto a discórdia bate quente
o consensual esfria a bala...
mas não lhe deforma a direcção.
Há na razão belicosa da acção
um evento arrancado do enredo comum
ou da crença estabelecida.
Um fio impertinente que não foi tecido
nas regras entrelaçadas
pode esperar outro conceito para se desforrar
fundar um novo conceito
ou refundar o traço do equívoco.
O consensual pode ser contraproducente
se não unir as faíscas antinómicas
preparadas para a colisão.
A cobardia é uma virtude
quando pretende desligar o foco que leva a linha ao conflito.
Pois pretende salvar o elo
que liga o fio ao novelo.
Theófilo de Amarante
Os bolsos da cisma
Depositar a verdade no bolso da sinecura
não é paradoxal...
pois os bolsos andam par-a-par
e a mentira se avizinha
tanto e tanto...
que ninguém sabe em qual bolso elas moram.
Quando precisamos do primeiro substantivo
por vezes utilizamos o segundo.
É a lei da ambiguidade
manipulada por ambidextros.
O par de bolsos é sempre simétrico
- ideado nos panos da antinomia
vivem na cisma do absurdo.
São um do outro – periféricos.
Da verdade...
dizem que pertence à dextrocardia
Da mentira...
que pertence à mitomania
e nada tem a ver com o canhoto
ou o dextro.
Verdade ou mentira?!...
Theófilo de Amarante
não é paradoxal...
pois os bolsos andam par-a-par
e a mentira se avizinha
tanto e tanto...
que ninguém sabe em qual bolso elas moram.
Quando precisamos do primeiro substantivo
por vezes utilizamos o segundo.
É a lei da ambiguidade
manipulada por ambidextros.
O par de bolsos é sempre simétrico
- ideado nos panos da antinomia
vivem na cisma do absurdo.
São um do outro – periféricos.
Da verdade...
dizem que pertence à dextrocardia
Da mentira...
que pertence à mitomania
e nada tem a ver com o canhoto
ou o dextro.
Verdade ou mentira?!...
Theófilo de Amarante
Amigo... um abraço
Um abraço até aos ossos
se as carnes estiverem ausentes
e a memória prescrita.
Sentirás na poalha
a húmida saudade
dos tempos da matéria animada.
Quando as peles se abreviavam no arrojo da vida
e éramos pilares da inferência.
Um abraço até ao finito do infinito.
Até aos limites do bem
ou do maldito.
Não interessa o espaço ou o tempo
que nos une ou nos separa
neste inusitado abraço.
Apenas
amigo...
Um abraço.
Theófilo de Amarante
se as carnes estiverem ausentes
e a memória prescrita.
Sentirás na poalha
a húmida saudade
dos tempos da matéria animada.
Quando as peles se abreviavam no arrojo da vida
e éramos pilares da inferência.
Um abraço até ao finito do infinito.
Até aos limites do bem
ou do maldito.
Não interessa o espaço ou o tempo
que nos une ou nos separa
neste inusitado abraço.
Apenas
amigo...
Um abraço.
Theófilo de Amarante
A quinta estação
A mão aberta no alto do braço estendido
não significa. – Alto, parem...
nem é prece à paz.
A palma virada para os olhos
não significa. – A consulta do futuro...
Talvez a maravilha do tempo que se esgueira entre os dedos
pelas fendas em -V- das quatro estações.
Ou a procura do tempo subliminal.
Theófilo de Amarante
não significa. – Alto, parem...
nem é prece à paz.
A palma virada para os olhos
não significa. – A consulta do futuro...
Talvez a maravilha do tempo que se esgueira entre os dedos
pelas fendas em -V- das quatro estações.
Ou a procura do tempo subliminal.
Theófilo de Amarante
Só a maioria tem razão!...
Dizem que ser anarquista
é ser incombinável
abstracto
refractário.
Dizem que ser agnóstico
é ser incompatível
abstracto
refractário.
Dizem que os dois unidos
são vãos
abstractos
refractários.
Dizem que não sabem definir
um copo meio-cheio-meio-vazio
confundem as cores do arco-íris
e não sabem ler uma rosa-dos-ventos.
Que não distinguem o poente da nascente
a noite do dia
a égua do cavalo
o processo e o remédio.
Dizem ainda que são
meio-costas-meio-barrigas
quase-nada e quase-tudo
que nem pertencem às minorias.
Dizem tanta coisa desses seres incombináveis
incompatíveis
abstractos
e refractários.
Que os mesmos que o dizem
não sabem onde começa a ordem
a disciplina
e a crença.
Mas dizem
porque são maioria.
E se não tivessem razão!...
Theófilo de Amarante (Fernando Oliveira)
é ser incombinável
abstracto
refractário.
Dizem que ser agnóstico
é ser incompatível
abstracto
refractário.
Dizem que os dois unidos
são vãos
abstractos
refractários.
Dizem que não sabem definir
um copo meio-cheio-meio-vazio
confundem as cores do arco-íris
e não sabem ler uma rosa-dos-ventos.
Que não distinguem o poente da nascente
a noite do dia
a égua do cavalo
o processo e o remédio.
Dizem ainda que são
meio-costas-meio-barrigas
quase-nada e quase-tudo
que nem pertencem às minorias.
Dizem tanta coisa desses seres incombináveis
incompatíveis
abstractos
e refractários.
Que os mesmos que o dizem
não sabem onde começa a ordem
a disciplina
e a crença.
Mas dizem
porque são maioria.
E se não tivessem razão!...
Theófilo de Amarante (Fernando Oliveira)
Pensaduras
Eu e tu
o cão e o grilo...
Vivas são as recordações
dum tempo sem insurreições.
Quando o cão ladrava e a avó mandava
no galinheiro.
O galo calava.
Infeliz era o padeiro...
que sempre partia sem pão e sem dinheiro.
No tempo de conversa fiada.
Tu e eu. O grilo e o cão
ninguém dizia sim.
Ninguém dizia não.
Não eras tu
sem mim. E eu, que seria!
Talvez o teu serão.
Naquele tempo...
Entre o cão e o grilo
- a vaca que mugia
não pastava -
não havia comunhão.
Havia.
Eu e tu
na tulha da tia.
- Deslinda que era feia -
Que entre o café e a meia
nota e enfeixa a dor da vida
com uma extinta flor de margarida
entre os cabelos untados de azeite.
Para seu deleite!
um piolho que nela passeava
com os dedos curvos, achava
na faixa inculta.
Já sem recordações.
Eu e tu
- O grilo morrera
nem um amém!
ninguém soubera -
E o cão
que não fugira.
Era tempo de futur’ações.
Theófilo de Amarante
o cão e o grilo...
Vivas são as recordações
dum tempo sem insurreições.
Quando o cão ladrava e a avó mandava
no galinheiro.
O galo calava.
Infeliz era o padeiro...
que sempre partia sem pão e sem dinheiro.
No tempo de conversa fiada.
Tu e eu. O grilo e o cão
ninguém dizia sim.
Ninguém dizia não.
Não eras tu
sem mim. E eu, que seria!
Talvez o teu serão.
Naquele tempo...
Entre o cão e o grilo
- a vaca que mugia
não pastava -
não havia comunhão.
Havia.
Eu e tu
na tulha da tia.
- Deslinda que era feia -
Que entre o café e a meia
nota e enfeixa a dor da vida
com uma extinta flor de margarida
entre os cabelos untados de azeite.
Para seu deleite!
um piolho que nela passeava
com os dedos curvos, achava
na faixa inculta.
Já sem recordações.
Eu e tu
- O grilo morrera
nem um amém!
ninguém soubera -
E o cão
que não fugira.
Era tempo de futur’ações.
Theófilo de Amarante
Grito privado
Agora não grito!
A minha garganta cheira a romã
e a língua é uma casca grossa de maçã
que absorve a inquietação.
A minha boca é uma oficina gráfica
que reduz até ao branco
o á-bê-cê do estrondo.
Se soltasse um brado,
este ecoaria no céu da boca
[como nas paredes da catedral o som perdura
e seria mastigado pelos dentes
[como o desfiladeiro tortura o vento.
Se vozear mais forte que o meu critério
é para mim.
Grito privado.
Theófilo de Amarante
A minha garganta cheira a romã
e a língua é uma casca grossa de maçã
que absorve a inquietação.
A minha boca é uma oficina gráfica
que reduz até ao branco
o á-bê-cê do estrondo.
Se soltasse um brado,
este ecoaria no céu da boca
[como nas paredes da catedral o som perdura
e seria mastigado pelos dentes
[como o desfiladeiro tortura o vento.
Se vozear mais forte que o meu critério
é para mim.
Grito privado.
Theófilo de Amarante
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