Estamos quites, até nunca mais

Quando me for embora
irei pela calada
para que ninguém chore.
Nem mãe
que talvez já não tenha.
Nem filho
que talvez nunca tive.

Navegarei para outra sina
até outra arraiada
selvagem como o fui sempre e agora.
Serei infeliz
por abandonar a raiz
de antigamente.

Com olhos probos e nariz como escora
irei com os meus consensos.
Numa mão uma bala e na outra um beijo.
Nos cabelos a minha história.

Só quero ir desequipado
sem sapatos e sem mais nada.
Nu.
Com um colete de quatro bolsos
no meu peito de anjo aleitado.

Num
levarei os cigarros
noutro
um naco de presunto
no terceiro
uma vinha
e no quarto
pão
ainda não recheado.

Pararei numa nuvem para acender um fumeiro
noutra para beber um bom tinto
com o pão e o pernil defumado.

Se não houver estações
não quero ir
farei perrice como a criança.

Não me interessa o destino
mas a viagem.

Se chegar a algum lado
verei
se fico ou se volto.

S e dependesse de mim até nem iria
mas parece que tenho que dar lugar a outro alguém.

Deixo o lugar frio
com ervas altas e sem poda
tal como as encontrei.

Vou sem dever nada a ninguém
quem fica também não me deve nada.

Theófilo de Amarante ( Fernando Oliveira )